Em 1997, a psicóloga Elizabeth Loftus publicou um artigo revolucionário na Scientific American intitulado Creating False Memories (“Criando Memórias Falsas”). Nele, ela demonstrou que memórias vívidas de eventos que nunca aconteceram podem ser implantadas em indivíduos por meio de técnicas de sugestão. Esse fenômeno não apenas desafia nossa compreensão sobre a confiabilidade da memória humana, mas também tem implicações profundas para a terapia, o sistema jurídico e até mesmo nossas relações pessoais. Este artigo explora como as memórias falsas são criadas, os mecanismos psicológicos por trás delas e os riscos que representam.
O Que São Falsas Memórias?
Memórias falsas são lembranças detalhadas de eventos que nunca ocorreram, mas que são vividas como reais pela pessoa. Ao contrário de mentiras ou invenções conscientes, elas são fruto de processos inconscientes, como sugestão externa, imaginação ou confusão entre fontes de informação.
Características Comuns:
- Detalhes vívidos: A pessoa descreve cenários específicos, emoções e até sensações físicas.
- Convicção inabalável: Apesar de evidências contraditórias, o indivíduo acredita piamente na veracidade da memória.
- Origem externa: Frequentemente, surgem após sugestões de terapeutas, familiares ou autoridades.
Casos Reais de Memórias Falsas Implantadas
1. Nadean Cool: As 120 Personalidades e o Culto Satânico
Em 1986, Nadean Cool, uma auxiliar de enfermagem, buscou terapia para lidar com o trauma de sua filha. Seu psiquiatra usou hipnose e técnicas sugestivas para “recuperar” memórias reprimidas de abuso. Cool passou a acreditar que:
- Pertencia a um culto satânico;
- Participou de rituais com sacrifício de bebês;
- Tinha mais de 120 personalidades, incluindo um pato.
Após processar o terapeuta por negligência, Cool recebeu US$ 2,4 milhões em um acordo judicial.
2. Beth Rutherford: A Virgem que “Lembrou” de Abortos Forçados
Em 1992, Beth Rutherford, durante terapia, “recordou” que seu pai, um pastor, a estuprou dos 7 aos 14 anos, com a ajuda da mãe. Ela relatou dois abortos forçados com cabides. Um exame médico, porém, confirmou que ela era virgem aos 22 anos. O caso resultou em um acordo de US$ 1 milhão contra o terapeuta.
3. Vynnette Hamanne e Elizabeth Carlson: Hipnose e Sódio Amytal
Duas pacientes processaram um psiquiatra de Minnesota por implantar memórias falsas de abuso familiar usando hipnose e sódio amytal (“soro da verdade”). Os júris concederam indenizações de US2,67milho~eseUS 2,5 milhões, respectivamente.
A Ciência por Trás das Memórias Falsas: Pesquisas de Elizabeth Loftus
Elizabeth Loftus, pioneira no estudo da memória, conduziu mais de 200 experimentos com 20.000 participantes para entender como a desinformação e a sugestão distorcem as lembranças.
1. O Efeito da Desinformação
Em um experimento clássico, participantes assistiram a um vídeo de um acidente de carro. Metade recebeu a informação falsa de que havia uma placa de “Pare” (quando na realidade era “Ceda a Passagem”). Posteriormente, 59% relataram ter visto a placa errada.
Princípio: A exposição a informações incorretas após um evento altera a memória original.
2. O Estudo do “Shopping Center Perdido”
Loftus e sua equipe implantaram uma memória falsa em 24 adultos: terem se perdido em um shopping na infância. Para isso:
- Parentes forneceram três eventos reais da infância dos participantes;
- Um quarto evento fictício (perder-se no shopping) foi adicionado;
- Os participantes leram os quatro relatos e foram entrevistados semanas depois.
Resultados:
- 29% dos participantes “lembraram” parcial ou totalmente do evento falso;
- 25% mantiveram a convicção mesmo após entrevistas repetidas.
Conclusão: Memórias falsas podem ser tão detalhadas quanto as reais, dificultando sua distinção.
Outros Estudos Chave sobre Memórias Falsas
1. Hyman e os Casamentos Fictícios
Ira Hyman, da Western Washington University, pediu que participantes lembrassem eventos reais e fictícios da infância, como “derrubar uma tigela de ponche em um casamento”. Na primeira entrevista, ninguém recordou o evento falso, mas 25% o fizeram após repetidas sugestões.
2. Spanos e as Memórias “Impossíveis”
Nicholas Spanos, da Carleton University, usou hipnose para convencer participantes de que se lembravam de móveis coloridos em seus berços no primeiro dia de vida — algo biologicamente impossível, já que o hipocampo não está maduro no nascimento. Surpreendentemente, 56% dos participantes “recordaram” os móveis.
Como as Memórias Falsas São Construídas?
1. Confusão de Fontes (Source Confusion)
O cérebro mistura informações de diferentes origens. Por exemplo:
- Um relato de um familiar + imaginação = memória falsa.
2. Inflação da Imaginação (Imagination Inflation)
Imaginar repetidamente um evento aumenta a confiança em sua ocorrência. Em um estudo de Loftus:
- Participantes que imaginaram “quebrar uma janela na infância” tiveram 24% mais probabilidade de acreditar nisso, contra 12% do grupo controle.
3. Pressão Social e Autoridade
Figuras de autoridade (terapeutas, policiais) podem influenciar a construção de memórias por meio de perguntas sugestivas. Saul Kassin, do Williams College, demonstrou que falsas acusações levam a “confissões” inventadas.
Implicações para a Terapia e o Sistema Jurídico
1. Riscos na Terapia de Memória Recuperada
Técnicas como hipnose, visualização guiada e perguntas sugestivas podem gerar memórias falsas. Wendy Maltz, autora de The Sexual Healing Journey, incentiva pacientes a “imaginar livremente” abusos, o que Loftus critica veementemente.
Dados Alarmantes:
- 11% dos terapeutas usam técnicas de imaginação sem restrições;
- 22% encorajam pacientes a “não se preocupar com a precisão” das memórias.
2. Impacto em Julgamentos Criminais
Memórias falsas já levaram a condenações injustas:
- Caso McMartin (1983): Acusações de abuso em uma creche basearam-se em relatos de crianças influenciadas por interrogatórios sugestivos. O caso foi arquivado após sete anos sem provas físicas.
- Falsas Confissões: Estudos mostram que pessoas inocentes podem confessar crimes imaginários sob pressão, especialmente se confrontadas com falsas evidências.
Memórias Reprimidas vs. Memórias Falsas: O Debate
A polêmica entre defensores das memórias reprimidas (traumas esquecidos e posteriormente recuperados) e céticos como Loftus divide a psicologia:
Argumentos a Favor das Memórias Reprimidas:
- Alguns sobreviventes de trauma recuperam lembranças décadas depois;
- Estudos com veteranos de guerra e vítimas de desastres mostram lapsos de memória pós-traumáticos.
Argumentos Contra:
- Não há evidências neurológicas de que o cérebro “apague” memórias traumáticas;
- Memórias “recuperadas” em terapia muitas vezes são contaminadas por sugestões.
Posição de Loftus: “A ausência de evidência não é evidência de ausência. Mas sem corroboração, é impossível distinguir memórias reais de falsas.”
Como se Proteger Contra Memórias Falsas?
1. Para Terapeutas:
- Evitar perguntas sugestivas (“Você foi abusado?”) e optar por abordagens neutras (“Conte-me sobre sua infância”);
- Educar pacientes sobre a maleabilidade da memória.
2. Para o Sistema Jurídico:
- Gravar interrogatórios para evitar coerção;
- Exigir evidências físicas ou testemunhas além de relatos memoriais.
3. Para Indivíduos:
- Questionar a fonte de lembranças repentinas;
- Buscar corroboração com registros médicos, fotos ou familiares.
Conclusão: A Fragilidade da Memória e a Necessidade de Ceticismo
A pesquisa de Elizabeth Loftus revela que a memória não é um arquivo estático, mas uma reconstrução dinâmica sujeita a erros. Seus estudos alertam para os perigos de técnicas terapêuticas invasivas e interrogatórios coercitivos, que podem destruir vidas com base em ilusões. Enquanto a ciência busca entender os limites entre memórias reais e falsas, é crucial adotar uma postura crítica — tanto na clínica quanto no tribunal.
Leitura Recomendada:
- The Myth of Repressed Memory (Elizabeth Loftus e Katherine Ketcham);
- Searching for Memory: The Brain, The Mind, and The Past (Daniel L. Schacter).
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